Home Blog

Como Fabricar Uma Nação Cristã

0

Reginaldo Moraes

Olhar para o que acontece com os outros às vezes nos ensina a olhar para nós mesmos. Ver o que aconteceu em outros países pode não nos dar respostas a nossos problemas, mas talvez ajude a fazer as perguntas certas.

O que segue abaixo é apenas uma anotação de leitura de um livro que serve a esse fim: Kruse, Kevin M. – One Nation Under God: How Corporate America Invented Christian America, Basic Books; 2016.

O autor questiona uma opinião bastante difundida nos Estados Unidos: a idéia de que aquele pais sempre foi uma ‘nação cristã’. Recupera a origem dessa crença e mostra como foi cuidadosamente engendrada nos anos 1930, como uma espécie de reação de grandes empresários contra o New Deal de Roosevelt, suas reformas econômicas, suas leis reguladoras e políticas sociais.

Naquela ocasião, alguns empresários, eles próprios vinculados a igrejas, sondaram, localizaram e recrutaram ativistas religiosos para lançar campanhas com lemas como “liberdade sob a ordem de Deus”. A campanha, uma longa cruzada, teve sua primeira vitória política importante com a eleição de Ike Eisenhower, em 1952, um presidente alinhado e cultivado por essa corrente organizada. Ike abriu um novo capítulo na relação igrejas-governo. Criou coisas como o National Prayer Breakfast, uma espécie de junção de dia da bandeira com dia de orações. Ao mesmo tempo, o congresso mudou o preambulo da constituição e a famosa Pledge of Allegiance (juramento da bandeira), incluindo a expressão “In God we trust”. A campanha teve outros sucessos, como a enorme incorporação dos americanos ao hábito do culto semanal (passa de uns 20% nos anos 1920 para perto de 70% lá por 1960). A propósito: Ike, que era batista mas nada praticante,  foi batizado (ou rebatizado) dentro da Casa Branca, por Billy Graham, que virou uma espécie de guru sempre presente na sede do governo.

====

Retomemos essa estória, então. Estados Unidos, anos 1930, recuperação de uma tremenda crise. País sob nova direção: F.D. Roosevelt e seu New Deal. Intervenção governamental nos negócios privados, regulação dos bancos, da indústria, do comércio, leis trabalhistas, políticas de obras públicas, de apoio aos camponeses, etc. Os empresários mais conservadores logo definem o “coletivismo” ou “estatismo” de FDR como uma versão disfarçada ou prenúncio do comunismo. Essa “intuição” dos empresários era compartilhada por muitos pastores protestantes. Esses empresários resolvem investir no desenvolvimento, sistematização e propagação desse discurso religioso e, ao mesmo tempo, aproximando-o ainda mais do discurso político, de classe, deles próprios (cristianismo = capitalismo e capitalismo = cristianismo). Colocam recursos para identificar os pastores ‘bons’ em todo o país, investem na formação de redes, publicações, promoção de eventos, campanhas e rituais. Para desenvolver e propagar a doutrina. Mas também, até para ajudar nessa expansão, eles procuram implantar rituais – exemplo, fazer campanhas publicitárias incentivando comparecimento ao culto regular, semanal, além da participação em eventos mais espaçados, de massa. Também providenciam a conexão dessas redes com lideranças políticas, em todos os poderes e em todos os níveis (local, estadual, federal).

Com o tempo, esse movimento religioso se transforma (deliberadamente, planejadamente) numa espécie de religião civil, um “americanismo” todo especial, em oposição ao comunismo ‘soviético’ e a sua versão sorrateira interna, o “coletivismo” ou “estatismo” do New Deal. Algumas lideranças religiosas se destacam nessa fase da criação do movimento. É o caso do pastor Billy Graham, que mais tarde teria papel fundamental na conexão com o governo federal – com Eisenhower, Nixon, Reagan e Bush pai. Se a memória não me trai, Graham também foi o ‘salvador’ do Bush filho, resgatando-o do alcoolismo.

O investimento dos empresários foi ativo – e foi essencial. Foi um empreendimento pesado, paciente, organizado. Na verdade, os empresários eram parte integrante da rede religiosa. Eles eram protestantes fundamentalistas. Não apenas financiavam e ficavam de fora. Participavam dos eventos, discutiam sua organização, ativavam mais recrutamentos através de seus grupos de classe, conectavam com os políticos. E ligavam o mundo dos pastores, também, com o mundo da mídia – no começo, do radio e dos jornais e revistas. Mais tarde, da TV. E do cinema, claro. Holywood participou ativamente das grandes manifestações da direita religiosa, de suas campanhas – James Stewart, John Wayne, Bing Crosby, Disney, Rock Hudson, Gregory Pecker. E Cecil B. de Mille, é claro. No intervalo do whisky e da cocaína, eles embarcavam no velho ópio do povo.

E os empresários também facilitaram a integração das igrejas com o mundo da publicidade. A agência Thompson foi contratada para varias campanhas, nas estratégias de marketing que procuravam espalhar a crença de que os valores cristãos eram os únicos que casavam bem com os valores do individualismo capitalista, e vice-versa. A figura de Cristo foi devidamente sequestrada e maquiada para se adequar ao papel.

A progressão do movimento para se transformar numa espécie de religião civil, de fé pública, patriótica, foi se fazendo através de campanhas para a implantação de símbolos e rituais. Por exemplo, a campanha pela introdução da frase “pais livre sob Deus” – o “under god” virou slogan oficial sob Eisenhower. O general também instituiu uma espécie de dia da bandeira misturado com dia de orações, a ser comemorado e preparado inclusive nas escolas. O “in god we trust” também foi incorporado nas notas de dólar. Finalmente, deus chegava ao mercado (ou vice-versa) – a principal ferramenta dos negócios, a moeda, tinha a marca da obediência a deus.

A partir de Eisenhower, os cultos regulares (inclusive os tais breakfasts de oração) se rotinizam, no governo, no Pentágono, nas casas legislativas do pais (inclusive o Congresso Nacional). E a cristianização dos americanos se massificou (a passagem dos 20 para os 70% de frequentadores de culto semanal).

É um movimento de longo prazo, o crescimento de uma ideologia cristã-conservadora-liberal. Deve-se destacar, nesse movimento, o chamado fator subjetivo – a ação organizada de lideranças (pastores, empresários, publicitários, etc). Intelectuais orgânicos. Criaram e elaboraram. Organizaram, administraram. E esperaram as oportunidades, agarrando-as fortemente (como a eleição de Eisenhower). O livro não examina outros fatores que favoreceram o movimento depois de 1980 – como o alinhamento para a direita da igreja católica mundial, a fragmentação econômica (e política) da classe trabalhadora, por conta da reengenharia das empresas e da sua ‘globalização’, as políticas macroeconômicas que privatizaram, desregularam e financeirizaram tudo, inclusive os detalhes da vida cotidiana (educação, saúde, moradia, previdência, etc.).

Isso ai acima é um pequeno resumo de parte do livro. O objetivo desta resenha é chamar atenção para o nosso caso tropical. Será que tivemos uma cópia reduzida e piorada dessa coisa? Repito, um aspecto interessante do livro é o tal fator subjetivo, a ação organizada. Essa ‘tecnologia’ se apreende. E se exporta, transplanta, com as devidas adaptações e subordinações – para a Ásia, para a América Latina e, mais especificamente, pro Brasil, claro. Não é mera conspiração. É política (o que inclui, sim, conspirações). A Internacional Reacionária é essa ação política. Como o dinheiro inventa a nação cristã. Lá como cá.

Dom Jaime Spengler

0

Arcebispo metropolitano de Porto Alegre 

“Na época em que a vida na terra era plena, ninguém dava nenhuma atenção aos homens dignos, nem selecionavam os homens capazes. Os soberanos eram apenas os galhos mais altos das árvores, e o povo era como cervos na floresta. Eram honestos e corretos, sem imaginar que ‘estavam cumprindo com o seu dever’. Amavam-se mutuamente, e não sabiam que isto se chamava ‘amor ao próximo’. Não enganavam a ninguém, e, no entanto, não sabiam ser ‘homens de confiança’. Podia-se contar com eles, e ignoravam que isto fosse ‘a boa fé’. Viviam juntos livremente, dando e recebendo, e não sabiam que eram homens de bom coração. Por este motivo, seus feitos não foram narrados. Não se constituíam em historiografia”                    (Poema de Chunag-Tse – Séc IV AC).

O texto acima é um poema proveniente da cultura asiática antiga. Ele pode ilustrar o quão distante nos encontramos do ideal humano de virtude.

Opiniões marcadas por estranhas ideologias produzem um esteticismo sem abertura para um compromisso ético. Tal situação se expressa em atitudes marcadas por empáfia do saber e do poder, vaidade exacerbada, rigorismo disciplinar, moralismo radical que camufla um orgulho desmedido, demonstrações de um pseudo-saber que na verdade demonstram incapacidade de diálogo, criatividade e disposição para ir ao encontro do outro. Nesse contexto não há lugar para a generosidade, a gratuidade, a disposição para construir uma sociedade na qual a economia esteja verdadeiramente a serviço da vida, que a promoção da paz e da justiça seja tarefa comum e a defesa da Mãe Terra, compromisso de todos.

O poema citado aponta para uma dimensão do humano que podemos denominar grande, profunda, livre, autêntica. Os antigos gregos chamavam esse modo de ser originariamente grande, profundo e livre de “virtude”, ou seja, “coragem de ser”.

Há uma questão a ser discutida: como promover o surgir, crescer e perfazer-se num modo de ser, marcado por virtude, sem recorrer à propaganda ou ao marketing tão presente em algumas expressões sociais, e sem cair ao mesmo tempo em um criticismo mesquinho e liberalista?

No ocidente, virtude se refere à essência do ser humano, ao seu modo próprio e específico enquanto vigor e vitalidade do tornar-se capaz da liberdade, e que se consuma como exercício da inteligência e da vontade. Vigor da inteligência e da vontade é a mesma coisa, são dois momentos de uma única vigência que no cristianismo recebeu o nome de “amar”.

Ninguém nasce bom; ninguém nasce simples, puro, sábio. É algo que se conquista ao longo da vida. Ser bom, justo, sábio requer muito trabalho; trabalho intenso, disciplinado e dedicado.

Virtude tem relação com equilíbrio, sensibilidade, delicadeza, que têm a ver com inteligência. Inteligência que não é sinônimo de informações acumuladas. Inteligência compreendida com perspicácia, sensibilidade, serenidade, cordialidade, disposição e empenho em cooperar responsavelmente na tarefa de tornar sempre mais habitável a “terra dos homens”. Alguém que assim se empenha no desenvolvimento da virtude é bom, útil, firme, bem disposto para a tarefa de fazer da “terra dos homens” uma terra verdadeiramente sem males.

Todos nós desejamos colaborar na construção de uma sociedade melhor para as futuras gerações. Para tanto, urge compreender sempre mais e melhor esse modo de ser próprio do ser humano, isto é, ser virtuoso. Sem o cultivo decidido de virtudes autenticamente humanas, as desigualdades sociais crescem, os sectarismos se desenvolvem, os conflitos se multiplicam, o ser humano se diminui na sua identidade e a tragédia se manifesta no horizonte.

Fonte: CNBB

CAMPANHA PEDE PARA SEDE DO PT-RR ABRIGAR IMIGRANTES VENEZUELANOS

0

Internautas lançaram uma campanha na internet sugerindo que a população divulgue o endereço do Diretório do PT em Boa Vista, capital de Roraima, com o objetivo de abrigar os imigrantes venezuelanos. Outra “campanha” sugere que os militantes do partido conversem com os refugiados

247 – Internautas lançaram uma campanha na internet sugerindo que a população divulgue o endereço do Diretório do PT em Boa Vista, capital de Roraima, com o objetivo de abrigar os imigrantes venezuelanos. Outra “campanha” sugere que os militantes do partido conversem com os refugiados. Segundo estimativas da prefeitura de Boa Vista, cerca de 40 mil venezuelanos já entraram na cidade, o que representa mais de 10% dos cerca de 330.000 habitantes da capital – os números foram publicados pelo El País no domingo (18).

Em 2017 foram registrados 22.247 pedidos de refúgio por venezuelanos, de acordo com a PF. Um recorde de solicitações nos últimos anos.

Brasil tem a 2ª população mais fora da realidade do mundo

0

Maria Fernanda Garcia 15 de março de 2018

 

A pesquisa global Perigos da Percepção 2017 foi realizada em 38 países. No ranking, que compara opiniões da população com dados da realidade, os brasileiros só estão atrás dos sul-africanos.

As informações coletadas foram comparadas com dados de fontes oficiais, resultando no ‘Índice da Percepção Equivocada’. O ranking aponta as distorções entre opiniões e realidade. Os piores resultados foram da África do Sul (1º), do Brasil (2º), Filipinas (3º), Peru (4º) e Índia (5º).

A Ipsos entrevistou 29,1 mil pessoas dos 38 países, entre 28 de setembro e 19 de outubro, e a pesquisa mostrou que apenas 7% das pessoas entrevistadas no mundo pensam que a taxa de homicídio em seu país é menor do que em 2000. No entanto, ela é significativamente menor na maioria dos países. No Brasil, a taxa de homicídios é a mesma de 2000, mas 76% dos entrevistados acreditam que ela é maior.

Quando o assunto abordado é ataque terrorista, apenas 19% dos entrevistados no mundo pensam que os índices de mortes são menores do que eram 15 anos antes, mas na verdade o índice caiu na maioria dos países e, em geral, está em metade do que era antes.

Os brasileiros mostram uma percepção bem equivocada em relação aos imigrantes que estão presos no país. A maioria acha que a população carcerária é composta por 18% de presos imigrantes, mas a realidade é bem menor, a taxa é de 0,4%.

O Brasil também está fora da realidade também quando a pergunta é qual é a proporção de brasileiros conectados à rede social Facebook. Os brasileiros acham que 83% da população está na rede social, mas a realidade é bem diferente: 47% dos brasileiros acessam a rede.

Outro dado interessante é que todos os países acreditam que a gravidez na adolescência seja mais frequente do que é na realidade, especialmente na América Latina e África do Sul. Os brasileiros foram os que mais erraram essa questão. O dado oficial é 6,7%, mas os entrevistados pensavam que fosse 48%. Mas não podemos comemorar: dos 38 países pesquisados, o Brasil é o que tem a maior taxa de gravidez na adolescência.

“O mais preocupante com os resultados desta pesquisa é que percepções erradas geram diagnósticos errados dos problemas do país e, consequentemente, soluções inadequadas”, afirma Marcos Calliari, CEO da Ipsos no Brasil.

http://observatorio3setor.org.br/noticias/brasil-tem-2o-populacao-mais-fora-da-realidade-do-mundo/

Brasil atual.

“Logo que na ordem econômica não haja um balanço exato de forças, de produção, de salários, de trabalhos, de benefícios, de impostos, haverá uma aristocracia financeira que cresce, reluz, engorda, incha, e ao mesmo tempo uma democracia de produtores que emagrece, definha e dissipa-se nos proletariados.” Eça de Queirós

“A riqueza de uma nação se mede pela riqueza do povo e não pela riqueza dos príncipes”. Adam Smith